Diário de uma arquiteta desempregada: a hora de jogar a toalha

diário de uma arquiteta desempregada hora de jogar a toalha

Bom dia, gente! Bom, esse não é um assunto fácil de se falar. Afinal, quem quer ler um artigo desmotivacional, em uma internet cheia de “não desista”, “você pode tudo”, “só não consegue quem desiste”? Mas a verdade é: quem nunca pensou em desistir? Eu pensei. Pensei na faculdade, pensei quando pausei as postagens no blog, estou pensando agora. Na verdade, eu cheguei a desistir – deixei de ser arquiteta (espiritualmente falando, se é que me entendem) por 3 anos. Fui fotógrafa nessa tempo. Não falava de arquitetura. Falava de câmeras, objetivas e photoshop. Acabei voltando.

Sabe, eu acredito que arquitetura é tipo ser padre, é um chamado. E é claro que você pode dizer não pro chamado, mas, no meu caso, todas as vezes que eu viro as costas, a voz fica me chamando na minha cabeça *rs*. “Isso é o que você é, não adianta fugir”. O complicado é a rejeição. Estou desempregada – desde que voltei a procurar emprego – há 268 dias, 10 horas, 1 minutos e 42 segundos. Não que eu esteja contando. Perdi a conta de quantos currículos enviei. Fiz duas entrevistas.

Eu poderia colocar a culpa em muitas coisas. Sou mulher. Sou estrangeira. Sou velha. Não tenho talento. Mas a verdade é que eu não sei o que é, e seria leviano da minha parte – ainda que a construção seja uma indústria machista, ainda que estejamos vivendo uma hora extremamente xenofóbica, ainda que haja milhares de jovens de 21 anos concorrendo pelas mesmas vagas que eu. A grande verdade é que eu não descobri.

Tem horas que dá um desânimo sim e eu penso se não é a hora de jogar a toalha e me resignar, que o meu destino é mesmo ser caixa de supermercado. Mas eu não estou preparada. Não ainda. Estou mudando planos e estratégias. Aos poucos vou contando por aqui. Torçam por mim.

Diário de uma arquiteta desempregada: da importância de ter alguém pra dizer que está uma merda*

Portfólio Diário de uma arquiteta desempregada

Não sei vocês estão lembrados (não!), mas meu último post da série foi sobre portfólio e currículo, lá em fevereiro. Aí que eu postei por aqui e mandei pro meu irmão ver o que ele achava. Ele disse, com aquela honestidade que só os irmãos tem, que estava bom mas poderia estar melhor. E é verdade.

Uma das coisas que a faculdade de arquitetura ensina, e que talvez a gente só se dê conta depois de muito tempo, é que a crítica não está ali para te fazer mal, mas para te ajudar a melhorar. Quando o professor diz que tá horrível e te manda fazer tudo de novo, ele (geralmente) não está querendo te desmoralizar e sim te fazer pensar em que outras soluções você pode achar para o problema. Soluções melhores? Soluções piores?

A vida é como a faculdade, só que não tem professor. Às vezes nós temos uma ideia (que achamos) brilhante e nos focamos tanto naquilo que acabamos não vendo o que poderia ser feito de forma diferente, de forma melhor. Aí entra a importância de ter alguém pra te dizer que tá tudo uma merda. Um amigo, um colega, um irmão – alguém em quem você confie e cuja opinião não vai te ofender. Alguém que possa ser sincero com você e te apontar tudo que você pode melhorar.

Por causa da crítica do meu irmão, não só melhorei meu portfólio mas melhorei meu currículo também – aprendi softwares que eu não sabia antes -, e por onde meu livrinho passa, só recebo elogios. (Quer dizer, não tenho um emprego ainda, mas isso é assunto pra outro post).

Então fica aqui a dica pra você que está procurando aquele emprego legal e não sabe o que mais pode melhorar: ache uma pessoa para estar do seu lado e dizer, sinceramente, quando tudo está uma droga.

* Desculpem o francês!

Diário de uma arquiteta desempregada: currículo e portfólio

Portfólio_detalhe

Currículos enviados: 0; horas gastas obsessivamente achando que o currículo não está bom o suficiente: 120.

(Roubei a ideia da Bridget Jones, me processem!)

Depois de passar 2 semanas produzindo o currículo e o portfólio (conforme relatado aqui), fui em busca da vaga perfeita. Já sabia que um dos escritórios para quem eu gostaria de trabalhar recebe currículos o tempo todo, sem necessariamente abrir vagas, então fui direto no website pegar o email para mandar e… eles só recebem cópia física. Pânico, pânico, pânico! O meu material foi produzido especificamente para ser enviado por email e visualizado sem dificuldades, não para ser impresso. Como lidar? Então eu passei mais uma semana compulsivamente pensando em *como* eu enviaria. Imprimir e grampear as folhas simplesmente não dava.

Minha primeira ideia foi usar um trem desses aqui. Ou uma pastinha. Mas isso seria muito simples, não é verdade? Eu tinha que inventar alguma coisa extremamente complicada e, de preferência, algo que eu nunca tivesse feito antes. Que tal encadernar um livro? Porque não basta ser megalomaníaca, tem que jogar a vida no nível hard.

Com ajuda do YouTube eu aprendi (o canal é esse aqui, e é mais fácil do que parece) e em 48 horas eu produzi dois livros, um pra mandar praquele escritório ali de cima e outro pra eu levar nas entrevistas (amém!).

Portfólio_capa

Portfólio_páginas06

Portfólio_páginas05

Incorporei o currículo logo após a página de abertura, para não ficar uma folha solta dentro do envelope. Não sei se vocês chegaram a ver o meu post sobre currículos, mas usei o modelo Chevron – apenas adaptei para o formato paisagem. O modelo também foi inspiração para o tecido da capa, que eu dei muita sorte de achar numa lojinha perto de casa.

Portfólio_páginas04

Portfólio_páginas03

Portfólio_páginas02

Portfólio_páginas01

As páginas foram impressas em papel fotográfico perolado gramatura 290 da Ilford (eu tinha uma caixa quase cheia da minhas épocas fotográficas). O portfólio é pequeno, só tem 8 páginas – devido ao tamanho do arquivo, mas acho que cumpre bem o objetivo: mostrar uma gama de habilidades de forma compacta, que não vai tomar muito tempo (nem espaço na caixa de mensagens) de quem recebe. Tem AutoCAD, tem SketchUp, tem desenho a mão livre, tem projeto quase completo, tem croqui, tem arquitetura, tem interiores.

Aproveito pra deixar algumas dicas das coisas que aprendi enquanto fazia o currículo e portfólio, para quem quiser tentar um emprego por essas bandas de cá:

  • É aceitável que o currículo tenha 1 página para cada 10 anos trabalhados, e no máximo 3 páginas, a não ser que você tenha uma boa justificativa.
  • É esperado que o currículo tenha, além da lista de empregos que você teve, o que você fez em cada lugar – no caso de arquitetura, é legal mencionar softwares usados, por exemplo, e em quais etapas do projeto você trabalhou.
  • Buracos no currículo não são bem vistos – alguns meses é ok, mas mais do que isso, é interessante explicar o porquê da pausa: viagens, cursos, licença maternidade. Eu, por exemplo, deixei alguns empregos de fora porque eram irrelevantes para a carreira que eu quero seguir e aumentariam o currículo desnecessariamente (passaria para duas páginas!), então tenho o cuidado de mencionar na carta de apresentação.
  • E por falar em apresentação, se apresente! Eu coloquei um item “perfil” no meu currículo, mas pode ser na carta de apresentação. Diga quem você é, o que você gosta de fazer – profissionalmente, gente! -, o que você espera alcançar no seu próximo emprego.
  • Represente o que você gosta de fazer no seu portfólio. Se você não curte trabalhos comerciais, não faz sentido você colocar esse tipo de projetos no portfólio, a não ser que você não tenha coisa o suficiente para mostrar (ainda).
  • Represente o que você sabe fazer no seu portfólio. Croquis, maquetes, software, desenho técnico, fotografia. Quanto mais variado, mais interessante. Um portfólio só com plantas do CAD ou só imagens do SketchUp pode acabar passando a ideia de que é só isso que você sabe fazer.
  • Atenção ao tamanho: no caso do portfólio impresso, acaba por ser irrelevante, mas no caso eletrônico é muito importante ter cuidado. Algumas vagas especificam o tamanho máximo que eles recebem, mas evite passar de 8-10Mb, porque dificulta pra mandar, dificulta pra receber.
  • Atenção ao formato! Novamente, importante no caso eletrônico. Sempre que possível, use PDF – um arquivo do word com uma fonte não reconhecida no destino vai desconfigurar todo o seu trabalho, vai ter figura voando, título no lugar errado. Usar PDF é uma forma de assegurar que o recipiente vai ver o seu currículo e/ou portfólio exatamente da forma como você idealizou.

E por enquanto é isso, pessoal. Vamos que vamos, tentando não pensar que o meu trabalho de dedicação e amor vai acabar no reciclável do escritório, rs.

Diário de uma arquiteta desempregada: semana 1

diário de uma arquiteta desempregada semana 1

*cri cri cri – bola de feno* Então! Cá estou eu novamente, depois de dois meses. Adoraria dizer que passei esse tempo viajando, fazendo planos mirabolantes ou trabalhando loucamente, mas a verdade é que passei cuidando de filha doente, fazendo tricô, tentando tocar músicas do Ed Sheeran e afundando em autopiedade. Todas as notícias que eu ia postar ficaram velhas, todo mundo já sabe qual é a cor da Pantone para 2015.

Mas estamos aí, ano novo vida nova etc etc. Eis que entre as minhas resoluções está: arrumar um emprego. Ok, essa resolução já está na vida há tempos, mas sempre tenho uma ideia brilhante, que vai dar muito certo, aí eu acabo trabalhando igual uma camela e ganhando uns amendoins (esse blog não está incluído nas minhas ideias brilhantes, veja bem!). E a verdade é que meu escritório é uma consultoria de interiores, o que não é bem o que eu quero fazer para o resto da vida. Quer dizer, é e não é. Não quero passar o resto dos meus dias produtivos somente especificando cor de parede e escolhendo tecido de cortina. Quero quebrar parede, assentar tijolo e tudo o mais *drama drama drama*. Dramas de lado, quero que o meu título seja reconhecido e que todas aquelas noites não dormidas não tenham sido em vão.

Não sei se já falei aqui, mas aqui na Inglaterra meu diploma não vale o papel que tá escrito. Para ser arquiteta, assim, com título, teria que fazer as provas do ARB, voltar pra faculdade ou achar um escritório que me adote e que me auxilie a conseguir as qualificações enquanto eu trabalho. As provas, no momento, estão fora de questão: eu teria que trazer e traduzir tudo que eu estudei na faculdade, vender um rim para pagar a taxa e correr o risco de ser reprovada. A faculdade é um possibilidade, conversei com algumas universidades e todas concordaram que eu poderia começar o curso do segundo ano (o bacharelado em arquitetura tem duração de 3 anos, explicarei como funciona em um post logo, logo), mas preferia não fazer dívidas a essa altura da vida – 9 mil rainhas por ano!

A alternativa óbvia, no caso, é procurar um emprego e implorar pra eles me salvarem do limbo. Passei as duas últimas semanas produzindo um currículo e um portfólio, um trabalho de amor, sangue, suor e clichês. E agora inauguro aqui no blog uma nova seção: diário de uma arquiteta desempregada! Acompanhem comigo as aventuras (!!!) de passar dias mandando currículo para todos os escritórios de arquitetura do país enquanto tenta evitar arrumar um emprego no centro de Londres. Não vai ser todo dia, na verdade não vai ter periodicidade fixa, mas toda vez que eu tiver algo novo para contar eu venho aqui dividir com vocês (você? Oi mãe!). E entre um post e outro do diário, continuarei a escrever os posts normais de arquitetura e interiores.

Torçam por mim, meu povo. Vou precisar de muita torcida.

(Este post não tem fotos. Foi mal.)