A casa do Oscar

A Casa do Oscar
A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.
Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.
Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar.

Chico Buarque

Imagem: Casa das Canoas

Prêmio RIBA House of the Year ~ surpresa!

Bom dia, gente! Então, na minha cabeça, hoje seria o dia que eu simplesmente diria quem ganhou o prêmio, escreveria uma redação sobre como o mundo é injusto etc etc, mas fui surpreendida pelo fato de eles anunciarem mais um finalista no mesmo dia do anúncio do vencedor – oi? Enfim, não sou eu quem manda nessa bagaça, eu só conto o que acontece (rs), então trago pra vocês o último indicado, o vencedor e a reclamação tudo num post só – vou resumir pra não ficar muito longo.

The Mill WT Architecture banner

Começando pelo último indicado (1. 2. 3. 4. 5. 6.): The Mill, projetada pelo escritório WT Architecture. A casa fica na Escócia e era originalmente as ruínas de um moinho. O website do escritório é bem sucinto e, sobre o projeto, diz apenas que “novas aberturas nas paredes existentes foram evitadas, com uma nova estrutura independente se encaixando dentro das paredes consolidadas.”

The Mill WT Architecture 01 The Mill WT Architecture 02 The Mill WT Architecture 03 The Mill WT Architecture 04 The Mill WT Architecture 05 The Mill WT Architecture 06 The Mill WT Architecture 07 The Mill WT Architecture 08 The Mill WT Architecture 09 The Mill WT Architecture 10The Mill WT Architecture isométrica The Mill WT Architecture perpectiva interna

Esse projeto talvez seja a resposta do porquê eu não gostei tanto da casa de antes de ontem. Sim, o (outro) projeto é bacana, mas cadê inovação, soluções criativas, etc etc? Um bom projeto é o mínimo que se deve esperar de um arquiteto e por si só não deveria ser motivo de premiação – nem de indicação, na minha opinião. Agora, pegar algo que já existe e transformar em um espaço de morar – quando seria bem mais simples demolir o prédio existente ou simplesmente construir algo totalmente novo -, buscar soluções para esse espaço, é outro tipo de desafio.

Mas, enfim, toda essa minha discussão sobre quem merece e quem não merece ser indicado pouco importa, já que não foi nenhum desses projetos que ganhou, hahaha 😀 E também não foi a casa que eu havia escolhido – mas o resultado não chega a ser surpreendente. O vencedor é *rufar dos tambores*:

A Flint House é o perfeito exemplo do que quantidades ilimitadas de dinheiro e um cliente liberal podem fazer – e isso não é uma crítica, é provavelmente o sonho de todo arquiteto, rs. Agora, o mimimi: para mim, esse prêmio serviu para ter uma ideia do que acontece com a arquitetura no Reino Unido e, talvez, uma explicação do porquê esteja sendo tão complicado para mim conseguir me colocar no mercado: tudo acontece em Londres. Só 2 dos 7 escritórios concorrentes não estão em Londres, metade das casas são em Londres e 5 das 7 são no sul da Inglaterra. Bom, talvez eu esteja equivocada e esse ano seja uma anomalia (afinal, ano passado quem ganhou foi uma casa no País de Gales, projetada por um escritório do País de Gales), mas me parece uma pena que, aparentemente, apenas uma parcela do país esteja se beneficiando de boa arquitetura. Enfim, vamos aguardar a premiação do ano que vem e ver o que acontece!

Imagens: The Mill 

Prêmio RIBA House of the Year ~ House at Maghera

House at Maghera McGonigle McGrath banner

Bom dia, gente! Estamos chegando ao final da nossa série de finalistas do prêmio RIBA House of the Year (1. 2. 3. 4. 5.). A última finalista é a House at Maghera, do escritório McGonigle McGrath. Do site dos arquitetos:

Maghera é um vilarejo no Condado de Down, na Irlanda do Norte. Existem evidências no povoado de uma tradição de telhados inclinados de forma simples, utilizando alvenaria revestida em reboco ou pedra, e telhados de ardósia ou aço. Os melhores exemplares estão localizados de forma que suas empenas conversam com a rua.

A proposta foi concebida como uma contribuição ao contexto e cenário da vila, por sua representação como uma coleção de formas tradicionais, casualmente colocadas e derivadas do posicionamento e da geometria espacial das estruturas do vilarejo.

Dois elementos inclinados completam a montagem formada pelo prédio adjacente, que é organizado como uma série de empenas se relacionando com a rua, e continuando a história da forma construída da vila. As empenas caminham na planta para acentuar o movimento e mudança de direção da rua, e para vislumbrar partes da paisagem na distância. A ligação dos elementos é casual em sua forma, refletindo a natureza local de técnicas de construção rurais esporádicas e eficientes.

O telhado inclinado resultante da ligação desses elementos se impõe sobre o elemento menor, criando assimetria e portanto casualidade em sua forma e desenvolve a ideia de que o telhado é um plano dobrado. As empenas são intencionalmente sólidas e sem aberturas no pavimento superior, refletindo os celeiros de alvenaria locais e respeitando o caráter da vila ao sul.

House at Maghera McGonigle McGrath 01 House at Maghera McGonigle McGrath 02 House at Maghera McGonigle McGrath 03 House at Maghera McGonigle McGrath 04 House at Maghera McGonigle McGrath 05 House at Maghera McGonigle McGrath 06 House at Maghera McGonigle McGrath 07 House at Maghera McGonigle McGrath 08_House at Maghera McGonigle McGrath 09 House at Maghera McGonigle McGrath 10House at Maghera McGonigle McGrath plantasHouse at Maghera McGonigle McGrath elevaçõesHouse at Maghera McGonigle McGrath situação

Eu gostei muito desse projeto, bem o meu estilo de casa. E assim chegamos ao final da série. Minha aposta ainda é que a vencedora vai ser a Kew House, por causa do sistema construtivo. E aí, alguém mais arrisca um palpite?

Imagens: Fotos. Plantas.

Prêmio RIBA House of the Year ~ Levring House

Levring House Jamie Fobert Architects banner

Boa tarde, gente! O post de hoje é a quinta casa finalista do prêmio RIBA House of the Year (1. 2. 3. 4.): a Levring House, projetada pelo escritório Jamie Fobert Architects. Localizada na área de conservação de Bloomsbury, em Londres, a casa de tijolos ocupa um terreno de esquina e completa uma casa mews* histórica. Do site dos arquitetos:

A nova residência foi desenvolvida em torno de uma reinterpretação do poço de luz londrino. Uma série de volumes sobem do subsolo até o topo da casa, envolvendo o poço de luz e abrindo todo o edifício para a luz do dia.

Internamente, a estrutura de concreto é exposta nas lajes e colunas. O exterior é coberto em tijolos e bronze. Os tijolos foram feitos a mão na Dinamarca.

Levring House Jamie Fobert Architects 01 Levring House Jamie Fobert Architects 02 Levring House Jamie Fobert Architects 03 Levring House Jamie Fobert Architects 04 Levring House Jamie Fobert Architects 05Levring House Jamie Fobert Architects croquis 01 Levring House Jamie Fobert Architects croquis 02 Levring House Jamie Fobert Architects modelo 3DLevring House Jamie Fobert Architects plantasLevring House Jamie Fobert Architects corte AA

Sendo sincera, essa não é a minha casa preferida. Talvez porque eu não tenha achado informação suficiente – nem pra escrever um post, quem dirá para formar uma opinião. Vou ver se consigo achar mais de detalhes e se, dessa forma, a casa ganhe o meu coração.

Imagens: Fotos. Modelo 3D e croquis. Plantas e cortes.

Mews: termo usado antigamente para descrever uma construção que era estábulo no pavimento térreo e acomodação residencial no pavimento superior. Atualmente o termo é usado para descrever pequenas unidades residenciais voltadas para um beco ou passagem de pedestres. A palavra é usada no plural mesmo quando é uma casa só.