Diário de uma arquiteta desempregada: 15 minutos de fama + os dilemas da vida (profissional)

diário de uma arquiteta desempregada dilemas da vida

E aí que ontem eu acordei e meu blog tinha tido 10 vezes mais visualizações do que o normal durante o dia, wordpress até veio me avisar. Todo mundo veio do Facebook pra esse post. Meu primeiro pensamento: quem tá falando mal de mim? É sério, gente, se tem alguém falando mal de mim, não me contem. Mas agradeço a quem compartilhou, de coração. Não faço dinheiro com o blog – quem sabe um dia -, mas alegria de escritor (ainda que os frustrados, como eu) é ter leitor. Parece que já voltamos ao tráfego normal, mas obrigada pelos 15 minutos de fama e por todos os compartilhamentos, comentários, curtidas no Facebook e mensagens. Fico feliz de ter alguém que lê, sério mesmo. Apenas não se esqueçam, por favor: esse é um blog pessoal, não tem receita de bolo (metaforicamente falando). É apenas um apanhado de experiências, que podem ajudar alguém (e espero que ajudem mesmo), mas não estou livre de escrever besteiras (espero que não escreva, rs).

Bom, hoje eu queria falar sobre os dilemas da vida. No título eu coloquei o profissional entre aspas porque eu acho difícil separar. Eu fiz várias escolhas, em diversos pontos da minha vida, que me trouxeram até onde estou. Ter filhos foi uma dessas escolhas. Nós escolhemos aquele momento porque não havia perspectiva profissional para mim. Aqueles anos foram muito ruins para o mercado da construção civil, não tinha emprego, não tinha trabalho. Fui ser fotógrafa. Passados seis anos, o dilema número um da vez é que a grande maioria dos trabalhos está em Londres. Eu não estou. E não quero estar. Mas existe escolha no momento? Na minha posição, eu tenho a opção? O dilema número dois é que eu quero escapar. Quero ir morar na beira da praia e ter qualidade de vida com a minha família. E para isso, eu teria que arrumar um emprego lá no destino. E se eu arrumar um emprego aqui, teria que ficar pelo menos mais um ano pra não pegar mal no currículo. Eu deveria me importar com essas coisas? Olha, não queria ficar de mimimi aqui, mas às vezes tomar decisões é tão complicado…

Inspiração: casas vitorianas

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Boa dia, gente! Sexta-feira chegou e com ela, a minha tradição semanal: post de inspiração! Estava um pouco em dúvida sobre fazer esse post porque eu não sou muito chegada em copiar períodos históricos em construções contemporâneas, mas acabei chegando à conclusão que inspiração não é cópia – tudo bem pegar elementos de tempos passados, re-significar, reinventar, se o contexto permitir, por que não?

E por que casas vitorianas? Bom, eu disse há muito tempo que gostaria de me mudar. E eu tenho um hábito estranho: todos os dias eu olho as casas à venda na região para onde eu quero me mudar. Não me julguem. Nessa busca, me apaixonei por casas vitorianas. Mas o que são casas vitorianas, Carolina? Então, eu ainda vou fazer um post pra explicar e mostrar um pouco da arquitetura britânica pra vocês (segunda vez que prometo, juro que logo sai!), mas tradicionalmente eles dividem os períodos de acordo com quem reinava na época. As casas vitorianas foram, então, as construídas no reinado da Rainha Vitória, entre 1837 a 1901 – apesar de alguns considerarem o período eduardiano dentro do vitoriano porque o reinado de Edward VII foi curto (só até 1910) e as características são praticamente as mesmas.

As casas vitorianas são muito comuns por todo o Reino Unido porque nessa época, com a Revolução Industrial, houve uma explosão da população urbana. São comumente terraced – não sei se há um termo em português para esse tipo de construção: são casas construídas em filas, dividindo paredes – apesar de, ocasionalmente, se encontrar construções geminadas (semi detached) e casas comuns (detached).

Típico terrace - fileira de terraced houses
Típico terrace – fileira de terraced houses

Pois então, após essa breve aula de história introdutória, vamos aos elementos que me fizeram morrer de amores por essas casas.

1. Bay windows

Olha, como tradução, encontrei janelas de sacada. Me parece uma tradução apropriada, mas confesso que esse não é um elemento que eu tenha encontrado antes de me mudar pra Inglaterra, então me perdoem a falta de certeza. Nome a parte, o que me encanta nesse tipo de janela é a luminosidade e a sensação de espaço que ela dá ao ambiente. Sem contar que é um elemento bem marcante na fachada – acho lindo, lindo.

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Não basta a janela, quero a vista também.
Não basta a janela, quero a vista também.

2. Mosaicos

Os pisos em mosaico utilizados no período são lindos! Muito utilizados no exterior e no hall de entrada, mas já vi em outros ambientes do térreo também como salas de jantar e cozinhas. Reproduções são muito comuns, já que – infelizmente – às vezes o estado de conservação não permite a restauração. Os pisos originais eram de terracota, e as cores mais utilizadas eram o vermelho, azul, branco, preto e marrom.

casa vitoriana piso mosaico 01 casa vitoriana piso mosaico 02 casa vitoriana piso mosaico 03

3. Lareiras

Nesse período, as casas tinham lareiras em todos os cômodos – um dos motivos pelos quais as fileiras de casa dessa época tem uma (ou várias) chaminés de cerâmica. O que me encanta nas lareiras vitorianas é o exterior – geralmente feitos de pedra, mármore ou madeira, às vezes decoradas com azulejos.

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Várias lareiras, uma chaminé - é assim que elas se encontram no sótão da casa.
Várias lareiras, uma chaminé – é assim que elas se encontram no sótão da casa.

4. Vitrais

Muito utilizados em portas e janelas por causa do estilo neogótico da época. Eu acho que contribui muito pro aspecto de chic que essas casas tem – obviamente, é o conjunto dos elementos, mas sem os vitrais, parece que não teriam tanta graça.

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E a última coisa: pé direito alto! Pode parecer bobagem, mas as casas contemporâneas daqui tem uma tendência a ser levemente claustrofóbicas por causa do pé direito baixo. Eu vejo essas casas e fico me imaginando com toda essa luz e espaço, hahaha. Um dia, quem sabe. Um dia. 🙂

Imagens: Topo1. 23. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14

Ser arquiteta num mundo de arquitetos

zaha hadid

Semana passada, pipocaram por toda a internet manchetes destacando que Zaha Hadid é a primeira mulher a ganhar a Royal Gold Medal do RIBA. O que me chamou a atenção mesmo foi a grande ênfase no termo “primeira mulher”. Por que isso é importante? Como isso me afeta e afeta você, arquiteta + estudante de arquitetura (do sexo feminino)?

Quando eu cheguei aqui na Inglaterra, percebi que as pessoas ficavam surpresas quando eu dizia que era arquiteta. Não foi até eu ler a edição de 2013 do especial Women in Architecture da revista Architects’ Journal (que os queridos da AJ me mandaram de presente quando disse que não achava pra comprar – beijo, AJ!) que eu me dei conta do porquê: arquitetura é um clube do Bolinha. Não é? Pra quem discorda, vamos fazer um exercício. 30 segundos no relógio. Quantos arquitetos famosos (do sexo masculino, que fique bem claro) você consegue se lembrar o nome? 10, 15, 20? Poderia ter continuado a lista quando o tempo acabou? Agora, quantas arquitetas? Chegou a 10? Eu não cheguei. Mal e mal passei de 5.

Eu já tinha programado falar sobre isso mais pra frente esse mês – e ainda vou dedicar uma semana inteira ao assunto – mas não queria deixar essa vitória da Zaha em branco. Nós precisamos de modelos, de mais Zahas, mais Linas, mais Denises, mais Francines – talvez não para nós, mas para que as futuras gerações saibam que podem sim ser arquitetas e que o reconhecimento não é privilégio dos homens.

*** Disclaimer: este não é um blog sobre feminismo. Este é um blog sobre arquitetura. Então vai ter arquitetos e vai ter arquitetas. Mas também é um blog pessoal e eu sou mulher, tenho uma filha (que, aos 6 anos, diz que quer ser arquiteta). Então, eu vou falar sim do papel do meu gênero na minha profissão e vou fazer tudo que estiver ao meu alcance pra mudar a situação atual das mulheres na arquitetura, começando com escrever sobre isso.